# Caso Master: crise entre STF e PF e a guerra de ministros

> O Caso Master gerou crise institucional entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Polícia Federal (PF), expondo divergências entre ministros sobre os limites da atuação investigativa. A disputa envolve a condução de diligências relacionadas ao Banco Master, com questionamentos sobre prerrogativas e métodos. O episódio revela tensões internas no Judiciário e entre poderes, sem consenso sobre a legalidade dos procedimentos adotados.

*Mercado Valor · Economia · 09 de setembro de 2026 · Bianca Solano*

A crise que colocou ministros do STF em lados opostos começou com as investigações sobre o Banco Master e avançou para uma disputa sobre a atuação da PF. Veja os principais pontos.

A crise que colocou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em lados opostos começou com as investigações sobre o Banco Master, mas avançou para uma disputa sobre a atuação da Polícia Federal e os limites de poder dentro da própria Corte.

Em pouco mais de uma semana, Alexandre de Moraes e André Mendonça trocaram acusações, Edson Fachin interveio para levar parte das controvérsias ao plenário e dois ministros deram decisões opostas sobre o comando da PF. Nesta quarta-feira (9), Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues, afastado um dia antes por Mendonça.

## O estopim: relatório da PF e o celular de Vorcaro

O estopim ocorreu com a divulgação de um relatório da PF que reúne informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O material contém 52 mensagens enviadas pelo banqueiro a um número atribuído pela PF a Moraes entre outubro e novembro de 2025.

Vorcaro relata informações sobre investigações contra o banco e pergunta sobre a possibilidade de interferência junto a autoridades. As respostas supostamente atribuídas a Moraes eram enviadas como imagens de visualização única e não foram recuperadas. Ou seja, o material divulgado mostra as solicitações de Vorcaro, mas não permite estabelecer, em grande parte dos episódios, o conteúdo das respostas nem comprova que os pedidos tenham sido atendidos.

O relatório trouxe outros elementos sobre a relação entre Vorcaro e Moraes, como encontros entre os dois e negócios do Banco Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Um contrato previa pagamentos milionários ao escritório, o que aumentou a pressão para esclarecer se houve conflito entre relações privadas e atuação institucional. O escritório sustenta a regularidade dos serviços. Até agora, as informações divulgadas não demonstram que Moraes tenha atendido aos pedidos do banqueiro.

Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Master, retirou o sigilo do relatório e encaminhou informações à Procuradoria-Geral da República. A PGR questionou o procedimento: o procurador-geral Paulo Gonet sustentou que uma apuração envolvendo outro ministro do Supremo deveria observar as regras de competência da Corte e pediu a anulação do relatório.

## A escalada: afastamento e reintegração na PF

A crise ganhou outro componente quando veio a público que Mendonça recebeu Vorcaro para uma conversa em março de 2025. O ministro confirmou o encontro e afirmou que ouviu o banqueiro sobre uma questão envolvendo precatórios. Segundo Mendonça, posteriormente ele votou contra os interesses de Vorcaro no processo discutido.

Flávio Dino retomou o episódio na decisão que reintegrou Andrei à PF. Sem afirmar que houve irregularidade, disse que a situação exigia "moderação, equilíbrio e prudência" de Mendonça.

O conflito deixou de se limitar ao caso Master quando Moraes pediu que Mendonça fosse investigado por supostos abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Moraes usou informações de relatórios internos da PF para sustentar que o colega teria direcionado investigações por interesses pessoais e políticos. O pedido foi apresentado no inquérito das fake news, relatado pelo próprio Moraes, o que abriu nova discussão sobre competência e possível conflito de interesses.

O presidente do STF, Edson Fachin, entrou diretamente na disputa. Ele retirou o pedido contra Mendonça do inquérito das fake news e abriu caminho para que as controvérsias fossem analisadas institucionalmente pela Corte. Fachin também pediu explicações a Moraes, Mendonça, Andrei Rodrigues e Paulo Gonet sobre os fatos relacionados aos relatórios da PF. A intervenção colocou o plenário no centro da solução da crise.

A escalada chegou à Polícia Federal nesta terça-feira (8), quando Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues da direção-geral e de Leandro Almada da Diretoria de Inteligência. Mendonça questionou a legalidade de relatórios produzidos pela PF e apontou indícios de monitoramento irregular de autoridades. Também determinou a abertura de investigações sobre a atuação dos delegados e restringiu a produção de determinados relatórios de inteligência.

A Segunda Turma chegou a formar maioria para referendar a medida, mas o julgamento foi interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes. Nesta quarta-feira, Dino determinou que Andrei e Almada fossem imediatamente reintegrados. Dino tomou a decisão em uma investigação sob sua relatoria sobre o possível uso de emendas parlamentares no financiamento do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro. Andrei argumentou que seu afastamento prejudicaria diligências em andamento.

O ministro também apontou problemas jurídicos na decisão de Mendonça. Para Dino, o Novo não tinha legitimidade para requerer uma cautelar penal contra os delegados, e uma controvérsia dessa dimensão deveria ser examinada pelo plenário. Dino afirmou ainda que a paralisação das atividades de inteligência poderia atingir investigações conduzidas por outros ministros.

## O que vem agora

O afastamento de Andrei por Mendonça e sua reintegração por Dino transformaram uma disputa sobre investigações em um problema de funcionamento do próprio Supremo. Agora, a Corte terá de definir questões que atingem seus próprios integrantes: se há elementos para investigar Moraes, se Mendonça observou as regras ao conduzir as apurações e quais são os limites para decisões individuais quando ministros estão pessoalmente envolvidos nos fatos analisados.

A disputa ocorre a menos de um mês do primeiro turno da eleição presidencial e já entrou no discurso das campanhas. Atos realizados no 7 de Setembro tiveram críticas a Moraes e manifestações favoráveis a Mendonça. Nesta quarta-feira, CNI, Fiesp, CNC e outras entidades empresariais divulgaram um manifesto cobrando que o plenário do STF examine publicamente e com urgência os fatos relacionados à crise.

O impacto sobre a imagem da Corte também aparece nas pesquisas. Levantamento Meio/Ideia divulgado nesta quarta mostrou que 51,6% concordam com a afirmação de que ministros do Supremo decidem mais por interesse próprio do que pela lei. A combinação entre suspeitas envolvendo integrantes do tribunal, decisões conflitantes e repercussão eleitoral elevou a pressão para que o STF produza uma resposta colegiada sobre os episódios.

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Fonte (canonical): https://mercadovalor.com.br/economia/caso-master-guerra-entre-ministros-pf-entenda-crise-atinge-stf/
