# Capital das Bets: por que o Rio lidera em apostadores

> O Rio de Janeiro lidera o ranking nacional de apostadores, com 26,89% da população realizando apostas em junho, segundo dados do Ministério da Fazenda. A capital fluminense concentra fatores como renda variável, alta informalidade e tradição cultural do jogo do bicho, que explicam o fenômeno. Ações de combate ao vício estão em curso no estado.

*Mercado Valor · Economia · 31 de agosto de 2026 · Bianca Solano*

O Rio lidera o ranking de apostadores: 26,89% da população fez apostas em junho. Renda, informalidade e cultura do jogo do bicho explicam o fenômeno. Veja os dados do Ministério da Fazenda e as ações de combate ao vício.

O Rio de Janeiro é a capital das bets no Brasil. Em junho, 1,8 milhão de pessoas realizaram apostas esportivas na cidade, o equivalente a 26,89% da população, segundo o Ministério da Fazenda. Em São Paulo, com população quase duas vezes maior, o percentual foi de 15,75%. Os dados acendem alerta para o transtorno do jogo, que já mobiliza a rede pública de saúde.

A Secretaria municipal de Saúde do Rio criou um programa para cuidar de pessoas com o transtorno. Em todo atendimento na rede, duas perguntas passaram a ser feitas: se o paciente já sentiu vontade de jogar e se precisou mentir sobre isso. Resposta positiva encaminha ao tratamento especializado. "Normalmente as pessoas não chegam às unidades de saúde pela porta principal. Não é uma doença tão fácil de tratar, pois geralmente há ansiedade, insônia e depressão atreladas", explica o secretário municipal de Saúde, Rodrigo Prado. Nas primeiras semanas, o perfil identificado: quase 60% eram homens e 53% tinham entre 18 e 39 anos. Entre os parentes afetados, 85% são mulheres com mais de 40 anos, a maioria mães e esposas.

Por que o Rio lidera? O diretor do Instituto de Economia da UFRJ, Carlos Frederico Leão Rocha, aponta: "A propensão do carioca ao jogo é maior, e isso tem a ver com a expectativa de renda, que é menor aqui do que em São Paulo, além da informalidade e da grande quantidade de funcionários públicos, com maior acesso a crédito consignado e taxas de juro mais baixas, o que gera tendência maior ao endividamento". Já o professor da UFF Gabriel Correia destaca a perspectiva cultural: "O jogo do bicho tem relação histórica com o Rio. Foi construída uma ideia de que é possível colocar dinheiro na banca e, às vezes, ganhar. As bets se aproveitam disso, atualizando essa relação".

O impacto financeiro é grave. O Brasil atingiu recorde de endividamento: 83,9 milhões de inadimplentes, segundo o Serasa, em julho de 2026. O Rio é o quinto estado com mais gente no vermelho, com 45% dos fluminenses devendo. A pesquisa mostrou que 46% dos inadimplentes já apostaram, e quase metade jogou com esperança de quitar dívidas. Breno, empresário de 37 anos em recuperação no Jogadores Anônimos, relata: "Eu perdia dinheiro e tentava recuperar. Não conseguia e colocava ainda mais. Era um ciclo que só piorava".

O governo federal implantou ações de prevenção, como alertas obrigatórios que desassociam apostas de investimentos. O jogador pode pedir bloqueio do CPF em sites oficiais pelo portal gov.br. Mas as iniciativas nem sempre funcionam: Breno solicitou a autoexclusão, mas segue recebendo mensagens de empresas ilegais. Júnior, estudante de TI, usou conhecimentos técnicos para bloquear anúncios de apostas em suas redes. O professor Correia sugere: "Por que não exigir que, a cada minuto de propaganda de bet, haja o triplo de conteúdo mostrando os problemas?".

A Ludopatia é classificada como transtorno mental pela OMS há quase 50 anos. Com o aumento das bets, o Ministério da Saúde registrou 27.703 cadastros no teleatendimento do SUS para jogadores desde março, sendo 2.448 no Rio. O programa Dependências da UFRJ também atende. O psiquiatra Marcelo Santos Cruz resume: "Antes, era preciso sair de casa para jogar. Agora, é possível apostar de qualquer lugar, pelo celular". As apostas de quota fixa foram legalizadas em 2018; os jogos de cassino on-line entraram em 2023, com regulamentação no ano seguinte.

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