Boeing tenta virar a página após crises sucessivas: recuperação em 2026
Em meio a uma trajetória de recuperação, a Boeing expande a produção do 737 Max para uma segunda fábrica, retoma certificações da FAA e acumula US$ 576 bilhões em pedidos. A empresa ainda enfrenta desafios, mas os sinais de virada são concretos.
Após crises sucessivas, a Boeing tenta virar a página
Em uma manhã deste mês, a porta de um enorme hangar de fábrica da Boeing ao norte de Seattle se abriu, e trabalhadores levaram para dentro uma fuselagem verde-esmeralda. Era apenas o segundo 737 Max a entrar em produção nessa fábrica em Everett, no estado de Washington, e isso representava um marco para a Boeing. A expansão da produção do 737 é um sinal do progresso que a empresa vem fazendo em seu esforço de recuperação, mais de dois anos após sua última grande crise.
Como a Boeing está se recuperando após as crises do 737 Max
Desde que o 737 estreou, em 1967, o avião era produzido quase exclusivamente em uma fábrica em Renton, subúrbio de Seattle. Mas Renton está perto de seu limite de capacidade, e a adição de um segundo local de produção em Everett ajudará a Boeing a cumprir sua ambição de fabricar mais unidades do 737 Max, de longe seu avião mais popular.
A Boeing entregou 314 jatos no primeiro semestre do ano, seu melhor desempenho nesse período desde 2018. No início deste ano, tinha US$ 576 bilhões em pedidos de aviões comerciais, o maior volume de sua história.
O papel da FAA na retomada da Boeing
Na sexta-feira, a Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) disse que permitirá que a Boeing volte a emitir certificados de aeronavegabilidade para todos os seus aviões 737 Max e 787, um avanço importante em relação à supervisão imposta pelos reguladores nos últimos anos. Há um ano, a FAA havia restaurado parcialmente essa autoridade à empresa, permitindo que ela emitisse certificados em semanas alternadas. Agora, a Boeing poderá aprovar todos os seus aviões, informou a agência, citando "qualidade de produção consistente".
As crises que abalaram a Boeing: de 2018 a 2024
Em janeiro de 2024, um painel mal instalado se desprendeu de um jato 737 Max durante um voo, provocando nova supervisão federal e renovado escrutínio público sobre a Boeing. Na época, a empresa mal havia começado a se recuperar de forma mais consistente de uma crise muito mais grave provocada pelos acidentes com o Max em 2018 e 2019, nos quais 346 pessoas morreram.
O episódio do painel levou a Boeing a mexer novamente em sua liderança, cultura e práticas, e essas mudanças parecem estar dando resultado.
A "guerra contra defeitos" e o controle de qualidade
Depois do incidente do painel em 2024, no qual ninguém ficou gravemente ferido, a FAA limitou a produção do Max a 38 aviões por mês até que estivesse satisfeita de que a Boeing havia melhorado a qualidade da fabricação. Posteriormente, a empresa implementou um regime de controle de qualidade que descreveu como uma "guerra contra defeitos", e a FAA autorizou a Boeing, no fim do ano passado, a produzir 42 jatos por mês e, neste ano, 47 por mês.
Expansão da produção em Everett: o novo marco
Cerca de 1.000 funcionários estão envolvidos nesse esforço. Metade dos mecânicos que montam o avião trabalhava antes em Renton, enquanto a outra metade é de novos contratados, segundo Jennifer Boland-Masterson, diretora sênior responsável pela expansão.
A FAA está auditando o processo e precisa aprovar a linha de produção, conhecida como North Line, antes que aviões fabricados ali possam ser entregues. Mas o trabalho já começou, lentamente, e a Boeing afirma que quase todas as etapas do processo espelham as das três linhas de produção do Max em Renton.
O trabalho está sendo realizado em um espaço anteriormente usado para fabricar o muito maior 787 Dreamliner, um avião de fuselagem larga cuja produção foi concentrada em uma fábrica na Carolina do Sul. A Boeing também fabrica em Everett o 777, o cargueiro 767 e o tanque militar KC-46A Pegasus. A fábrica, descrita pelo Guinness World Records como a maior do mundo em volume, também foi um dia a casa do icônico 747, cuja última unidade foi entregue em 2023.
Metas de produção: de 47 para 52 aviões por mês
A Boeing está trabalhando para atingir de forma sustentada a taxa de 47 aviões por mês, e a linha de Everett foi adicionada para ajudar a empresa a alcançar sua próxima meta de produzir 52 por mês e, futuramente, ainda mais.
"Isso é bastante importante", disse Sheila Kahyaoglu, analista de ações da Jefferies especializada em empresas aeroespaciais e de defesa. "Aumentar o ritmo ajuda muito." Kahyaoglu estima que cada 737 entregue pode gerar entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões em caixa, já descontados custos e investimentos necessários.
Demanda global por aviões e a corrida contra a Airbus
Também ajuda o fato de que as companhias aéreas estão desesperadas por novos jatos para atender à crescente demanda global por viagens. Espera-se que centenas de novos pedidos sejam anunciados nos próximos dias, quando Boeing e outras empresas se reunirem em um aeroporto perto de Londres para um dos maiores eventos aeroespaciais do mundo, o Farnborough International Airshow, realizado a cada dois anos.
"Tem sido uma verdadeira febre de encomendas", disse Stuart Hatcher, economista-chefe e diretor de dados da IBA, consultoria de aviação, durante um seminário nesta semana.
Na maioria dos casos, um pedido de avião feito hoje à Boeing ou à sua rival europeia Airbus não deverá ser atendido antes da década de 2030. Ainda assim, a Boeing segue atrás da Airbus, que recebeu mais do que o dobro de pedidos neste ano e tem uma carteira maior.
Os próximos passos: certificação do Max 7, Max 10 e 777-9
Embora a Boeing tenha avançado na produção do Max, ela ainda vem sendo prejudicada por três aviões com longos atrasos. Mas a empresa agora diz estar perto de certificar cada um deles.
A Boeing afirmou que o trabalho de certificação das menores e maiores variantes do Max, o Max 7 e o Max 10, está bastante avançado. A empresa também disse estar fazendo progresso substancial com o 777-9, um gigante projetado para viagens internacionais de longa distância. Os três aviões estão anos atrasados, mas a Boeing disse esperar começar as entregas de todos eles no próximo ano.
"O caminho está claro", disse Mike Sinnett, vice-presidente sênior da Boeing, a repórteres neste mês. "Sabemos o que temos de fazer. Nos reunimos com a FAA com muita, muita frequência."
Novos sistemas de segurança no Max 10
O Max 10 será entregue com um novo sistema exigido em decorrência dos acidentes. Esse sistema, conhecido como Enhanced Angle of Attack, foi projetado para simplificar os alertas recebidos pelos pilotos quando é detectado um erro em um sensor que mede o ângulo do avião em relação ao fluxo de ar que se aproxima, conhecido como ângulo de ataque.
Investigadores afirmaram que múltiplos alertas relacionados a dados incorretos desse sensor dificultaram a reação dos pilotos nos acidentes fatais. Uma vez certificado, o novo sistema deverá ser incorporado a todos os aviões Max em até dois anos.
Tanto o Max 7 quanto o Max 10 também contarão com uma correção no sistema anti-gelo do motor para resolver preocupações com superaquecimento em determinadas condições.
O 777-9 avança nos testes
O 777-9, um avião de fuselagem larga capaz de transportar mais de 400 passageiros em longas distâncias, também está avançando, disse a empresa. O modelo já realizou mais de 1.700 voos de teste, e a Boeing espera entregar o primeiro 777-9 no ano que vem.
A visão dos analistas sobre a recuperação da Boeing
"A Boeing está em uma trajetória claramente ascendente", disse Jerry Lundquist, consultor do setor cuja empresa, a Lundquist Group, assessora executivos da indústria aeroespacial, mas atualmente não trabalha para a Boeing. "Ela ainda não chegou a um voo de cruzeiro suave, estável e sustentado, mas continua indo bem. É uma história muito positiva."
Apesar do otimismo, executivos da Boeing alertaram que a divisão de aviões comerciais ainda não gerará lucros consistentes por algum tempo, em parte por causa de investimentos como o US$ 1 bilhão gasto para expandir a produção do Max em Everett.
Perguntas Frequentes
O que causou as crises da Boeing?
A Boeing enfrentou duas crises principais: os acidentes fatais do 737 Max em 2018 e 2019, que mataram 346 pessoas, e o incidente de janeiro de 2024, quando um painel mal instalado se soltou de um jato em voo, sem feridos graves.
Qual é a situação atual da produção do 737 Max?
A Boeing está produzindo 47 aviões 737 Max por mês, com autorização da FAA, e planeja chegar a 52 por mês com a nova linha em Everett.
A Boeing voltou a emitir certificados de aeronavegabilidade?
Sim. Em junho de 2026, a FAA autorizou a Boeing a emitir certificados para todos os 737 Max e 787, citando "qualidade de produção consistente".
Quantos pedidos a Boeing tem atualmente?
No início de 2026, a Boeing tinha US$ 576 bilhões em pedidos de aviões comerciais, o maior volume de sua história.
Quando o 777-9 deve ser entregue?
A Boeing espera entregar o primeiro 777-9 no ano que vem, após mais de 1.700 voos de teste.
O que muda no sistema de segurança do Max 10?
O Max 10 contará com o Enhanced Angle of Attack, que simplifica alertas de erro no sensor de ângulo de ataque, uma das causas apontadas nos acidentes fatais.