Economia

Ajuda internacional: corte de 23,1% em 2025 é o maior da história

ResumoA ajuda internacional de países ricos registrou queda de 23,1% em 2025, a maior redução da história. O corte, liderado pelos Estados Unidos com 75,1% do total, atinge severamente a África Subsaariana. O Brics Policy Center documenta o impacto em estudo sobre financiamento global.

A ajuda internacional de países ricos caiu 23,1% em 2025, a maior redução já registrada. Estudo do Brics Policy Center aponta que os EUA respondem por 75,1% do corte, com impactos severos na África Subsaariana.

Caetano Vidal
Caetano Vidal Analista de criptoativos · 03 de agosto de 2026
Ajuda internacional: corte de 23,1% em 2025 é o maior da história

Ajuda internacional sofre corte de 23,1% em 2025, o maior da história

O volume de ajuda internacional de países ricos para nações pobres, menos desenvolvidas e instituições multilaterais sofreu corte de 23,1% na passagem de 2024 para 2025, marcando a maior redução já registrada. No ano passado, o auxílio dos países ricos foi de US$ 174,3 bilhões, quase R$ 900 bilhões, um corte de US$ 52,4 bilhões em um ano, em termos reais, já considerando a inflação do período. Foi o segundo ano seguido de diminuição na ajuda internacional global.

Qual a origem dos dados sobre o corte de 23,1%

Os dados fazem parte do estudo Financiamento para o Desenvolvimento, elaborado pelo Brics Policy Center, centro de estudos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Os pesquisadores Isabel Rocha de Siqueira, Enzo Cosenza e Luis Ehl buscaram informações do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD), grupo de países doadores ligado à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), conhecida como "clube dos países ricos". O Brasil não faz parte da instituição.

Os acadêmicos projetam ainda nova redução de 6,9% em 2026, configurando o terceiro ano seguido de recuo, o que levaria o patamar de ajuda ao mesmo nível de 2014.

O que é a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD)

Os valores de doações se referem à chamada Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD), recursos públicos fornecidos por governos com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico e a prosperidade em outros países. A ajuda pode ser bilateral, quando é enviada diretamente para o país receptor, ou multilateral, recursos que os governos enviam para instituições, como a Organização das Nações Unidas (ONU) ou o Banco Mundial, que possuem os próprios programas de desenvolvimento.

Quem puxou a redução da ajuda internacional

Apesar de o comitê ser formado por 33 países e a União Europeia (UE), o estudo revela que os cinco maiores doadores (França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos) representam 95,7% da redução de 2024 para 2025. Os EUA cortaram a ajuda internacional em mais que a metade, 56,9%, de forma que só os americanos respondem por três quartos, 75,1%, da diminuição.

O ano passado marcou também a primeira vez em que todos os grandes doadores diminuíram o volume de doação por dois anos seguidos: Alemanha (-17,4%), França (-10,9%), Reino Unido (-10,8%) e Japão (-5,6%).

O papel de Trump e a mudança de prioridades

O corte mais que pela metade da ajuda americana coincide com o início do novo mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. O presidente americano tem mantido posição contra o multilateralismo. Outro fator apontado para diminuição é o direcionamento de recursos para outras áreas, notadamente segurança energética e defesa.

Em relação aos EUA, os gastos com defesa subiram de US$ 822,8 bilhões em 2024 para US$ 845,3 bilhões. Na União Europeia, o salto foi de 11%, chegando a 381 bilhões de euros. O estudo aponta que o investimento total em energia na UE passou de US$ 215 bilhões em 2015 para cerca de US$ 420 bilhões em 2025, ou seja, quase dobrou.

"Esse impulso de investimento vem se consolidando ao longo da década e foi fortemente acelerado pelo choque de segurança energética após o início da Guerra da Ucrânia [fevereiro de 2022]", explica o relatório.

Retração seletiva: nem todos os canais caem

Os pesquisadores sinalizam uma "retração seletiva" da ajuda internacional. Essa condição é marcada pelo fato de não haver queda uniforme nos canais multilaterais. O financiamento ao sistema ONU caiu 27%, o maior já registrado. No entanto, o apoio ao Banco Mundial aumentou 6,4%; e aos bancos regionais de desenvolvimento, 11,9%.

"Os governos doadores estão redefinindo quais tipos de engajamento multilateral eles consideram dignos de serem preservados, por motivos estratégicos", afirma o documento.

Ucrânia: prioridade estratégica mesmo com cortes

Mesmo com a queda global da ajuda internacional, a Ucrânia, país atualmente no quinto ano de guerra com a Rússia, se destaca como prioridade estratégica de países europeus. Mesmo com redução de 91% da ajuda dos EUA ao país, a Ucrânia é o maior recebedor individual de toda a história da AOD. Esse patamar, com US$ 44,9 bilhões recebidos, foi compensado por 23 países que incrementaram o volume de assistência financeira. Só instituições da UE subiram os envios em 65,2%.

O montante recebido pela Ucrânia supera os US$ 28,1 bilhões destinados aos 44 países do grupo classificado pela ONU como Países Menos Desenvolvidos (PMD).

Impactos humanos e regionais dos cortes

Para apresentar impactos do corte na ajuda internacional, os pesquisadores da PUC-Rio se utilizam de dados da Oxfam, organização internacional sem fins lucrativos focada em combater a pobreza.

"A estimativa é de que os cortes na ajuda externa somente em 2025 seriam responsáveis por 695.238 mortes em excesso e que, caso a tendência de cortes na ajuda continue, poderiam causar 9.416.417 mortes até 2030", reproduzem.

A região que mais sofre com o recuo da ajuda internacional dos países ricos é a África Subsaariana, que viu em 2025 os recursos diminuírem 23%, ficando em US$ 29,2 bilhões. Para 2026, a projeção é nova redução, dessa vez de 11,6%. Se confirmado, serão US$ 11,8 bilhões a menos para essas nações. O estudo lembra que 32 dos 49 países da África Subsaariana também são do grupo Países Menos Desenvolvidos.

O paradoxo da COP30 e o financiamento climático

Ao citar a insuficiência de recursos, o documento lembra que durante a 30ª Conferência da ONU sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em novembro passado em Belém, falava-se na necessidade de mobilizar US$ 1,3 trilhão para o financiamento climático, ao mesmo tempo em que havia "um consenso de que esse valor é praticamente inalcançável".

Caminhos apontados pelo estudo para minimizar danos

Ao fim do diagnóstico, o levantamento apresenta caminhos que deveriam ser perseguidos para minimizar impactos em países mais dependentes de ajuda internacional. Entre as ações estão:

  • Direcionar recursos escassos para os países mais pobres, especialmente os que dependem excessivamente de poucos doadores.
  • Planejar saídas de financiamento de forma "responsável e coordenada".
  • Tornar a ajuda mais eficaz e geradora de mais impacto para o desenvolvimento.

Perguntas Frequentes

Por que a ajuda internacional caiu tanto em 2025?

O corte de 23,1% é atribuído principalmente à redução drástica da ajuda dos EUA, que responde por 75,1% da diminuição. O direcionamento de recursos para segurança energética e defesa também é um fator apontado pelo estudo.

Qual foi o valor da ajuda internacional em 2025?

O volume foi de US$ 174,3 bilhões, quase R$ 900 bilhões, uma queda de US$ 52,4 bilhões em relação a 2024, em termos reais.

Quem são os maiores doadores de ajuda internacional?

Os cinco maiores doadores são França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos. Juntos, eles representam 95,7% da redução de 2024 para 2025.

Como a queda da ajuda afeta os países mais pobres?

A África Subsaariana é a região mais afetada, com redução de 23% em 2025. A estimativa da Oxfam é de que os cortes podem causar 695.238 mortes em excesso somente em 2025.

O que é a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento?

É o conjunto de recursos públicos fornecidos por governos para promover o desenvolvimento econômico e a prosperidade em outros países, seja bilateral ou multilateralmente.

impacto dos cortes na África Subsaariana Como a COP30 lida com o financiamento climático

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