Agrolend mira R$ 2 bi no agro com vacuo dos bancões e inadimplência recorde
A Agrolend, fintech que se define como banco digital do agronegócio, planeja dobrar sua carteira de crédito para R$ 2 bilhões em 2026, aproveitando a retração dos grandes bancos diante do aumento da inadimplência e das recuperações judiciais no setor.
No vácuo dos bancões, banco digital mira dobrar carteira no agro para R$ 2 bilhões em meio ao ciclo de RJs e inadimplência
A piora da inadimplência e o avanço das recuperações judiciais no agronegócio fizeram os grandes bancos reduzirem o apetite por crédito ao setor. É justamente nesse espaço que a Agrolend, fintech que se define como um "banco digital do agronegócio", vê sua principal oportunidade de crescimento. A instituição planeja praticamente dobrar sua carteira de crédito, de R$ 968 milhões no fim de 2025 para cerca de R$ 2 bilhões até o final de 2026.
A Agrolend quer dobrar sua carteira de crédito rural de R$ 968 milhões para R$ 2 bilhões em 2026, aproveitando a retração dos grandes bancos em meio à inadimplência recorde de 8,8% no crédito rural para pessoas físicas, segundo o Banco Central. A fintech aposta em critérios seletivos e baixa alavancagem para crescer onde os bancões recuam.
Por que os grandes bancos reduziram o crédito rural?
Segundo Alan Glezer, co-CEO e fundador da Agrolend, o atual momento do crédito rural é consequência de um ciclo iniciado entre 2021 e 2022. Na época, juros historicamente baixos e a soja próxima de R$ 180 por saca estimularam produtores a ampliar área, comprar máquinas e aumentar a alavancagem.
Com a posterior alta dos juros, a queda dos preços das commodities e o aumento dos custos de produção, a conta deixou de fechar para uma parcela relevante do setor. "A gente vê o ciclo de recuperações judiciais aumentando, a inadimplência subindo", afirmou Glezer em entrevista ao Money Times. "O produtor está endividado e, pagando juros nesse patamar, a conta fica bastante inviável. O preço da soja bateu R$ 180 e voltou para R$ 120."
Inadimplência recorde no crédito rural
Segundo dados do Banco Central, a inadimplência das operações de crédito rural com atraso superior a 90 dias para pessoas físicas alcançou 8,8% no primeiro trimestre de 2026, o maior patamar da série histórica. Esse indicador ajuda a explicar a retração dos bancos tradicionais.
Quem são os bancos que recuaram?
Glezer cita que instituições como Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Santander e Caixa ganharam relevância no financiamento ao setor entre 2019 e 2023, período de juros baixos e preços elevados das commodities. Agora, diante do primeiro grande ciclo de deterioração do crédito desde 2016, a reação natural foi reduzir o risco.
"Agora, quando a gente vivencia um ciclo de inadimplência mais forte, a reação natural dos bancos é pôr o pé no freio", disse Glezer. "A mesma coisa acontece com o Banco do Brasil. O apetite desses bancos para crescer no agro está mais restrito."
A estratégia da Agrolend: crescer onde outros recuam
Segundo Glezer, a fintech começou a endurecer seus critérios de crédito ainda em 2023, antes da deterioração mais intensa do mercado. "A gente freiou muito antes. Como a gente freiou muito antes, entramos neste momento da crise muito pouco alocados."
Hoje, a instituição possui cerca de R$ 650 milhões de patrimônio líquido para uma carteira próxima de R$ 800 milhões, um nível de alavancagem bem inferior ao observado em bancos tradicionais. "Um banco normalmente opera com uma carteira equivalente a cerca de dez vezes o patrimônio líquido. Nós estamos muito pouco alavancados vis-à-vis uma instituição financeira tradicional."
Isso permite aumentar a exposição justamente quando outros concorrentes reduzem a oferta. "Nós entramos nesse momento com maior apetite, selecionando a dedo as operações e os clientes", afirmou.
Inadimplência controlada da Agrolend
Mesmo diante do aumento das recuperações judiciais no setor, Glezer afirma que a carteira da Agrolend segue apresentando indicadores confortáveis. A inadimplência acima de 90 dias permanece abaixo de 1%, indicador considerado bastante positivo pela companhia.
"Isso reflete a cautela e o conservadorismo que adotamos há dois anos, quando mudamos o perfil da carteira e elevamos muito a barra de aprovação", disse o executivo. "Observamos recuperações judiciais e, obviamente, estivemos envolvidos em algumas delas, como todos os outros players."
Oportunidade além dos bancos brasileiros
Na avaliação do executivo, a restrição de crédito não ocorre apenas entre os bancos brasileiros. Grandes multinacionais de insumos agrícolas também reduziram a oferta de financiamento ao agronegócio após a alta dos juros no exterior.
"As grandes químicas da Alemanha, do Japão e dos Estados Unidos reduziram essa oferta", afirmou Glezer. "No Japão, por exemplo, o juro de longo prazo era zero e hoje está entre 3% e 4%. Essa combinação das multinacionais reduzindo crédito lá fora e dos bancos locais diminuindo o apetite criou uma demanda enorme por crédito no agro."
Como a Agrolend pretende competir?
Glezer afirma que a Agrolend não pretende competir apenas pela oferta de crédito, mas pela velocidade na aprovação das operações e pela capacidade de estruturar soluções sob medida para empresas do agronegócio. A instituição ampliou seu foco e hoje atende não apenas produtores rurais, mas também grandes empresas do setor e subsidiárias de multinacionais.
"A gente tem atendido mais grandes empresas do agro. Esse é o modelo que mais cresceu recentemente", disse. "Hoje a gente consegue fazer operações de R$ 50 milhões ou R$ 100 milhões muito rapidamente."
Perspectivas para o agronegócio
Apesar disso, Glezer não acredita que o ciclo de deterioração tenha terminado. "A gente já viu os produtores que estavam pior posicionados saindo do mercado. Mas esse ciclo ainda não terminou. A melhora estrutural depende principalmente de uma queda mais consistente dos juros."
Para o longo prazo, o executivo mantém uma visão positiva. "O agro é um setor cíclico. O Brasil continua sendo extremamente competitivo, com ganhos de tecnologia, produtividade e capacidade de expandir a produção. É preciso olhar além do momento atual."
Perguntas Frequentes
O que é a Agrolend?
É uma fintech que se define como "banco digital do agronegócio", focada em crédito rural e soluções financeiras para produtores e empresas do setor.
Qual a meta de carteira da Agrolend para 2026?
A fintech quer dobrar sua carteira de crédito de R$ 968 milhões para cerca de R$ 2 bilhões até o fim de 2026.
Por que os grandes bancos estão reduzindo crédito rural?
Devido ao aumento da inadimplência, que atingiu 8,8% no primeiro trimestre de 2026, e ao avanço das recuperações judiciais no setor.
Qual a inadimplência atual da Agrolend?
Segundo a empresa, a inadimplência acima de 90 dias permanece abaixo de 1%.
A Agrolend atende apenas produtores rurais?
Não. A fintech ampliou o foco e hoje atende também grandes empresas do agronegócio e subsidiárias de multinacionais.
O ciclo de deterioração do crédito rural já terminou?
Segundo o co-CEO Alan Glezer, não. A melhora estrutural depende de uma queda mais consistente dos juros.
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