Credito e Dividas

Recuperação judicial avança entre pequenos negócios; veja como enfrentar

ResumoA recuperação judicial entre micro e pequenas empresas cresceu 41,4% em junho, segundo levantamento Monitor RGF-BizDoc. Juros altos e endividamento pressionam pequenos negócios, que buscam proteção judicial para renegociar dívidas. Especialistas recomendam reestruturação financeira preventiva e negociação com credores antes do agravamento da crise.

Levantamento Monitor RGF-BizDoc aponta salto de 41,4% nos processos de recuperação judicial entre micro e pequenas empresas em junho. Especialistas explicam o peso dos juros altos e como estancar a crise antes do pior.

Caetano Vidal
Caetano Vidal Analista de criptoativos · 14 de setembro de 2026
Recuperação judicial avança entre pequenos negócios; veja como enfrentar

A recuperação judicial avança entre pequenos negócios. Em junho, 2.821 micro e pequenas empresas (MPEs) estavam sob proteção da Justiça para reestruturar operações, salto de 41,4% ante o mesmo mês de 2025. O ritmo é quase o dobro do registrado por médias e grandes, que cresceram 21,2% no período, segundo o Monitor RGF-BizDoc.

O avanço se concentra no comércio: no semestre, os processos subiram 18,3% entre micros e 11,2% nas pequenas, contra 8% da taxa geral. O pano de fundo é a taxa de juros elevada por muito tempo, que encarece o crédito e corrói o caixa, somada ao recuo no consumo diante do alto endividamento das famílias.

Dois agravantes pesam sobre as MPEs. O pequeno negócio costuma ser familiar, com gestão pouco profissionalizada e menos preparada para prever e contornar crises. No comércio, falta patrimônio próprio para oferecer em garantia em acordos com credores.

Claudio Damasceno, sócio da RGF Associados/BizDoc, resume o problema. "Pequenas empresas têm um componente emocional grande, o negócio do pai que contrata o filho, é amigo do fornecedor. E falta especialização em crise. Isso dificulta decisões", afirma. "Outra coisa é que elas têm patrimônio menor e a marca não é tão forte. Falta algo a oferecer ao credor, e o plano de reestruturação fica frágil. Por isso, o ideal é nem chegar à recuperação judicial."

O custo do crédito é uma das principais dores. Referência do setor, o Pronampe foi criado em 2020 com a Selic a 2% ao ano; a taxa corrige o saldo devedor e recebe acréscimo de 6%. Agora, a Selic está em 14%. Neste ano, com o Novo Desenrola, a linha teve regras revisadas, com maior prazo de carência, pagamento, limite e mais recursos via Fundo Garantidor de Operações (FGO).

Casos concretos mostram caminhos. Maria Margarida Santos, dona de uma pizzaria há quase seis anos, contratou empréstimo para comprar equipamentos e se endividou. "Cheguei a pensar em fechar as portas quando não conseguia pagar os funcionários e perdi fornecedores", conta. Ela descobriu ainda multa da Receita Federal após cair na malha fina. Está há um ano em reestruturação, já renegociou dívidas e aguarda acordo com o Fisco. Meta: reserva de R$ 60 mil. "Passei a separar as contas. Aprendi a gerir o negócio. Corrigimos os preços e agora estou tendo um lucro na casa dos 22%", diz.

Na MAMplast Recicláveis, o empresário Alcyr Quintino percebeu em 2019 que a empresa de 21 anos caminhava para o vermelho. Dividiu a organização em departamentos e criou processos e indicadores. Veio a pandemia, e o planejamento ajudou a adaptar-se. "(A situação) Está pior, mas estou mais estruturado, e é por isso que estou vivo. Hoje mesmo tive a notícia de que mais dois clientes fecharam", relata.

O Grupo Florencio, de Saúde e Segurança do Trabalho, perdeu o principal cliente. As sócias Laureni e Laura Florencio mapearam dívidas e buscaram o Sebrae. O faturamento, que caiu de R$ 15 mil para R$ 3 mil mensais, hoje está em R$ 40 mil. "A maior dificuldade que a gente enfrenta é saber se mostrar para o cliente. Esse é o grande desafio: lidar com pessoas. Temos que nos reinventar", diz Laura.

Especialistas ouvidos apontam medidas para estancar a crise antes da recuperação judicial. Entre elas, separar contas pessoais da contabilidade, definir pró-labore compatível, fazer diagnóstico financeiro, projetar fluxo de caixa, diversificar fontes de receita, mapear custos de crédito e revisar margens. Se não houver perspectiva realista de sustentação, incluir o encerramento organizado na análise.

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