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Quem paga a conta mais pesada no varejo? Veja o estudo

A queda da Selic costuma trazer uma associação quase automática com o varejo: juros menores aliviam o custo do crédito, podem favorecer o consumo e reduzir parte da pressão financeira sobre as empresas. Mas essa conta não pesa da mesma forma para todas. Em uma amostra de 30 companhias de varejo e consumo da B3, as despesas financeiras variam de 1,3% a 23% da receita líquida em 2026.

Os dados fazem parte do estudo "O preço da dívida no varejo brasileiro", da Málaga & Associados, enviado ao InfoMoney e assinado por Flávio K. Málaga e Victor Marques. A fotografia surge justamente quando os juros começam a ceder. Em agosto, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, na quarta queda consecutiva. O Copom, porém, deixou em aberto os próximos passos do ciclo.

O levantamento acompanha as demonstrações financeiras das empresas entre 2018 e 2026. Os dados deste ano foram anualizados a partir do período disponível. A amostra reúne companhias de varejo e consumo, mas também inclui segmentos adjacentes, como turismo, energia e agronegócio.

A Málaga ordenou as 30 empresas conforme a relação entre despesas financeiras e receita líquida e dividiu a amostra em dois grupos de 15 companhias. Entre as mais pressionadas, essa relação passou, em média, de 5,1% em 2018 para 12,3% em 2026. Entre as 15 menos pressionadas, avançou de 1,6% para 3,1%.

O contraste ajuda a mostrar quem carrega hoje a conta financeira mais pesada, e até onde uma Selic menor pode aliviar empresas que chegam ao novo ciclo em condições tão diferentes. Para dimensionar essa pressão, a Málaga utiliza uma margem operacional de referência de 5,3%. O indicador corresponde à média de cinco anos das 15 companhias com as maiores margens operacionais da amostra, com desvio padrão de 0,5 ponto percentual.

No grupo mais pressionado, as despesas financeiras correspondem, em média, a 12,3% da receita em 2026, mais que o dobro dessa margem de referência. O movimento não começou agora: a linha das 15 empresas mais pressionadas ultrapassou a referência em 2020 e não voltou a ficar abaixo dela nos anos seguintes.

A CVC aparece no topo da relação elaborada pela Málaga. As despesas financeiras da companhia passaram de 7,7% da receita em 2018 para 23% em 2026. Na sequência estão Cosan, com 20,5%; Marisa, com 19%; Smart Fit, com 18,6%; e Grupo Toky, com 17,6%. O Grupo Casas Bahia registra 8,3%, ante 2,5% em 2018.

Os balanços mais recentes ajudam a acrescentar contexto. A CVC registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 51,3 milhões no segundo trimestre de 2026, enquanto a Marisa teve prejuízo líquido de R$ 68,4 milhões e resultado financeiro negativo de R$ 106 milhões no período.

A fotografia muda no segundo grupo. Entre as 15 companhias classificadas como menos pressionadas, as despesas financeiras representam de 1,3% a 4,7% da receita líquida em 2026, patamar que a margem operacional do grupo ainda consegue cobrir. Grupo SBF e União Pet aparecem com 4,7%. A Azzas 2154 vem logo depois, com 4,6%, seguida por Automob, com 4,4%, e C&A, com 4,3%. Mais abaixo estão Magazine Luiza, com 3,5%; Raia Drogasil, com 2,5%; Grupo Mateus, com 2,1%; Lojas Renner, com 1,6%; e Vibra Energia, com 1,3%.

A presença nesse segundo grupo não significa ausência de desafios operacionais. O Magazine Luiza, por exemplo, registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre. A Renner teve lucro praticamente estável, de R$ 404,6 milhões, mas reduziu sua projeção de crescimento da receita líquida para 2026.

Outra leitura possível surge quando as despesas financeiras são colocadas lado a lado com a margem operacional de cada companhia. Na CVC, a despesa financeira equivale a 23% da receita, enquanto a margem operacional média de cinco anos considerada no levantamento é de 4,9%. Na Marisa, são 19% de despesa financeira para margem de 2,3%. No Grupo Casas Bahia, 8,3% para 1,6%.

Mas nem mesmo o primeiro grupo é homogêneo. A Cosan, por exemplo, registra despesa financeira de 20,5% da receita e margem operacional média de 21,1%. Na Smart Fit, os indicadores são de 18,6% e 13,8%, respectivamente. No grupo menos pressionado, a Renner apresenta despesa financeira equivalente a 1,6% da receita, diante de margem operacional média de 10%. Na Raia Drogasil, são 2,5% e 6,1%; no Grupo Mateus, 2,1% e 5,9%.

Também há casos que mostram por que a classificação precisa ser interpretada dentro do recorte escolhido pela Málaga. O Magazine Luiza está entre as 15 empresas menos pressionadas, com 3,5%, mas sua margem operacional média de cinco anos é de 1,9%. A relação, portanto, não é uma medida isolada de solvência. O estudo mede especificamente quanto da receita líquida é comprometido pelas despesas financeiras.

Uma avaliação mais ampla de cada empresa precisaria incorporar fatores como geração de caixa, liquidez, alavancagem, cronograma de vencimentos e capacidade de refinanciamento. Segundo a Málaga, explica uma parte, mas não toda.

O estudo reconhece que a alta dos juros contribuiu para o aumento da pressão financeira, mas chama atenção para o comportamento diferente dos dois grupos durante o mesmo período. "A diferença entre os dois grupos está na estrutura de capital herdada e no modelo de negócio, não apenas na taxa de juros."

Na interpretação da consultoria, o ambiente de juros mais elevados evidenciou diferenças que já separavam as companhias. Uma redução da Selic tende a aliviar a pressão, mas não elimina a necessidade de ajustes nas empresas mais pressionadas. O estudo argumenta que planos de recuperação não deveriam depender da volta ao ambiente de juros excepcionalmente baixos de 2019 a 2021.

Para essas companhias, a consultoria cita alternativas como renegociação de dívidas, venda de ativos, aporte de capital e, nos casos mais extremos, recuperação extrajudicial ou judicial. A conclusão é que a queda dos juros pode aliviar a conta, mas o efeito será diferente em cada empresa. O ponto de partida, especialmente a relação entre despesas financeiras, receita e margem operacional, continua sendo decisivo.

Rubens Athayde
Economista de mercado
Economista de mercado.
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