# Protestos na França: Centro político é vítima de polarização

> Os violentos protestos que abalaram a França em 17 de outubro deixaram um rastro de destruição e uma vítima política inesperada: o centro. Emmanuel Macron, o presidente do país, foi confrontado não apenas pela turbulência nas ruas, mas também por críticas de seu ex-primeiro-minis

*Mercado Valor · Credito e Dividas · 02 de novembro de 2026 · Caetano Vidal*

Os protestos violentos que assolaram a França em 17 de outubro não apenas deixaram cidades em chamas, mas também feriram o centro político do país. Em resposta aos distúrbios, o ex-primeiro-ministro Édouard Philippe criticou abertamente o presidente Emmanuel Macron por falhar em restaurar a ordem e dialogar com os manifestantes, especialmente estudantes secundaristas. A divergência pública, embora não inédita, evidencia a crescente polarização que sufoca figuras centristas.

Philippe, principal candidato do centro político, viu seu apoio nas pesquisas cair cerca de dois pontos percentuais desde o início dos protestos, situando-se entre 13% e 15% das intenções de voto. Ele agora figura atrás de Jean-Luc Mélenchon, da extrema-esquerda, e bem distante de Marine Le Pen, da extrema-direita, que detém cerca de um terço do eleitorado em diversos levantamentos. Esse cenário coloca em risco sua participação no segundo turno das eleições presidenciais de abril, com uma provável vitória de Le Pen sobre Mélenchon.

"A política está ficando mais polarizada, com o movimento estudantil e as acusações de violência policial", avalia Philippe Marlière, especialista em política francesa da University College London. Segundo ele, os extremos possuem repertórios próprios para lidar com a situação, enquanto a direita moderada é espremida, sem espaço para ser ouvida. Essa pressão sobre políticos centristas é um fenômeno europeu, impulsionado pela insatisfação com o custo de vida e economias estagnadas, favorecendo partidos populistas.

Enquanto Le Pen alertou para uma "profunda crise de confiança e autoridade", buscando projetar uma imagem de líder preparada, Mélenchon acusou o governo de "violência cega". Philippe, por sua vez, buscou um discurso de lei e ordem menos agressivo, reunindo-se com comerciantes e acompanhando patrulhas policiais. Em entrevista à revista Le Point, ele associou os distúrbios a jovens de origem imigrante, classificando-os como um "fracasso da integração" e prometendo reduzir pela metade o número de imigrantes nos próximos cinco anos.

Aliados de Philippe reconhecem o clima político desfavorável para um centrista moderado. Arnaud Péricard, porta-voz do partido Horizons, de Philippe, afirma que "existe um antes e um depois de 17 de outubro", indicando um momento de perda de referências para os eleitores. Ademais, Philippe enfrenta uma investigação sobre desvio de recursos públicos na prefeitura de Le Havre, onde detém o status de "testemunha assistida". Péricard, contudo, minimiza o impacto, considerando o assunto "para trás".

A fragmentação do centro político francês ampara Philippe. Seus rivais diretos no centro-direita, como Gabriel Attal, também sofrem quedas nas pesquisas, enquanto nomes conservadores como David Lisnard ganham destaque. Attal defendeu a realização de eleições primárias para unificar o centro. Na centro-esquerda, Raphaël Glucksmann mostra leve melhora, e a possível entrada do ex-presidente François Hollande na disputa é aguardada.

Analistas, como Raphaël Llorca da Fundação Jean-Jaurès, questionam se o cenário atual não marca o fim do "macronismo", com eleitores retornando às suas origens políticas. A dificuldade em formar uma coalizão centrista competitiva, como a de Macron em 2017, e a polarização política tornam o surgimento de um "salvador" improvável, apesar do desejo de parte do eleitorado por uma nova figura renovadora.

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