Selic alta pesa mais no produtor rural PF, diz Rabobank
A alta da Selic encarece o crédito rural, mas não atinge todos os participantes do agronegócio com a mesma intensidade. Segundo estudo do Rabobank, os efeitos do aperto monetário são mais fortes sobre o produtor pessoa física, principalmente pelo aumento das taxas de juros e da inadimplência.
O canal de transmissão da política monetária para o crédito rural, dizem os economistas Mauricio Une e Renan Alves, autores do relatório, "permanece ativo, embora com intensidade distinta entre os segmentos analisados".
O que o Rabobank encontrou
A análise mostra que, após um choque inesperado na taxa básica de juros, a inadimplência das pessoas físicas sobe cerca de 0,1 ponto percentual entre seis e 12 meses. Para as empresas, não foram encontrados efeitos persistentes sobre os atrasos.
A diferença vem da estrutura do financiamento rural no Brasil. As linhas direcionadas e subsidiadas pelo Plano Safra reduzem o repasse das oscilações da Selic para o custo do crédito, sobretudo no segmento de pessoas jurídicas. O produtor pessoa física, sem o mesmo acesso, fica mais exposto.
Em abril de 2026, a inadimplência do produtor pessoa física alcançou 7,16%, ante 3,08% entre as pessoas jurídicas. Nas operações contratadas a taxas de mercado, a distância é ainda maior: 12,79% para pessoas físicas e 0,76% para empresas. Nas linhas com taxas reguladas, os percentuais caem para 1,80% e 0,50%, respectivamente.
Selic e renda agrícola: dois pesos no mesmo bolso
O comportamento da inadimplência não se explica só pela política monetária. A capacidade de pagamento do produtor depende também dos preços das commodities, dos custos dos insumos e da renda da atividade.
No ciclo de alta de 2013 e 2014, o produtor enfrentou juros maiores, mas foi beneficiado pelos preços favoráveis da soja e do milho e pela relativa estabilidade dos fertilizantes. Entre 2021 e 2022, mesmo com a disparada dos juros e dos insumos, intensificada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, as commodities agrícolas permaneceram em níveis historicamente elevados.
O cenário ficou menos favorável no aperto de 2024 e 2025. Soja e milho recuaram dos picos, enquanto os fertilizantes demoraram a normalizar. Receitas menores e crédito caro comprimiram as margens e coincidiram com elevação mais clara da inadimplência, principalmente entre as pessoas físicas.
A conclusão do Rabobank é que juros elevados, isoladamente, não provocam necessariamente deterioração relevante da qualidade do crédito. O risco cresce quando o aperto monetário vem acompanhado de queda nas receitas. Nesse ambiente, a Selic elevada funciona como amplificador da inadimplência e do risco de crédito no campo.
O juro composto não perdoa, e no crédito rural ele cobra em dobro de quem depende da renda da safra para pagar a conta.